As coisas que eu não disse

28 maio 2013


No dia em que você foi embora, milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Eu tinha vontade de te ligar e dizer que você era estúpido demais para permanecer ao meu lado por muito tempo. Que meu sorriso era grande e aberto e seu pavor não poderia me entristecer. Mas enquanto isso, permanecia dura na cama feito estátua olhando para o relógio, congelada por sua frieza. Tentei toalha úmida e banho-maria que era para ver se meu corpo aquecia, mas nem que eu entrasse em água fervente eu conseguiria isso. Meus pais, amigos e qualquer outro familiar - que a gente tanto criticava baixinho nas festas - me olhavam com pena e sussurravam como se eu não pudesse os ouvir dizendo: "essa aí, coitada, perdeu os sentidos depois de que o fulaninho lá partiu, só Deus na causa".


Eu tentava me reerguer para discutir com eles sobre como nosso caso nunca foi qualquer casinho digno de fofocas familiares em festas dominicais. Em vão. Não que sua falta me doesse tanto assim, acredito até que já havia superado você e sua infantilidade sem tamanho. Mas é que a dor de amor renova a gente, perceba. Você quer acordar melhor para a vida e o mundo, mesmo sabendo que é possível que isso não funcione e que a perca de tempo talvez te afunde mais ainda. Mas você tenta. Contra a preguiça, o mau humor e tudo o que te arrasta para trás vira motivo para se manter em pé. Eu vejo beleza na dor. Eu me vejo no espelho com o rímel borrado e a maquiagem velha e não enxergo absurdo algum nisso, porque a solidão de amar corrompe qualquer princípio ou forma regrada de viver.



As coisas que eu não disse talvez não façam o minimo sentido para você, porque tenho certeza que você espera arrependimento, choro ou esse texto terminando comigo te implorando para voltar, mas não. A dor de amor machuca na mesma proporção em que cura. Irônico isso, não? Todas as vezes em que sofri por amor, me renovei. Todas as vezes em que chorei, me banhei de felicidade logo após. E todos os dias em que passei na cama por não ter forças e nem a minima vontade de seguir em frente, eu me recompus e compus as melhores partes que poderiam haver em mim.


Sua falta me doeu muito naqueles dias. E naquelas noites. E nas palavras não ditas. Mas hoje, querido, a lua muda a forma, o vento bate mais forte e a chuva chega sem trazer melancolia alguma. A cicatriz nem lateja mais. É como se nunca houvesse algum você em minha vida. E não digo isso para cuspir no prato em que comi ou para disfarçar um passado sujo. Digo verdadeiramente: sua presença me doeu, sua falta me doeu, viver você e não viver contigo me doeu muito. Mas as coisas que eu não disse não vieram para trazer à tona sentimentos amargos sobre passado, pelo contrário. Eu os trouxe para dizer que você me doeu muito, mas viver frente à angústia que foi amar você me fez crescer. A ponto de fazer eu nem conseguir te enxergar mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Raiane Ribeiro: As coisas que eu não disse © 2011 - 2015 - Todos os Direitos reservados
Desenvolvido por: Pamella Paschoal